#78 Decidi aceitar o risco
e isso diz mais sobre o meu McAffe que não foi renovado do que sobre todo o resto
Eu não tenho costume de sentir raiva, sinto muita coisa mas raiva eu nunca me deixo sentir. Parece que a palavra não cabe na boca é como se a raiva fosse espinhosa, que queima a garganta e deixa latejar a cabeça. Ela é como aquele compromisso que a gente precisa resolver mas nunca quer olhar. É a roupa no varal em dia quente que seca em 15 minutos mas eu demoro três dias para tirar e dobrar, depois mais uma semana útil pra colocar no armário. A raiva é a criança de colo chorando na repartição e a mãe, que não pegou fila prioritária se recusa a dar chupeta. Ela ta ali, ela incomoda e a gente não quer fazer absolutamente nada pra lidar com aquilo. É melhor ser surda do ouvido direito do que falar ôminhasenhora controle sua cria.
Eu sinto coisas que não sei dizer o nome, sinto tremedeira, pressão baixa, vivo dizendo que sinto ansiedade, que vomito em dia de calor, que está quente demais e deve ser por isso que passei mal, sinto tanta coisa que o corpo coloca pra fora e o cocô sai sempre como se fosse dia de dor de barriga, parece que não aceita sair, sabe? Tem um poema da Ana Martins Marques que diz assim
Tenho quebrado copos
é o que tenho feito
raramente me machuco embora uma vez sim
uma vez quebrei um copo com as mãos
era frágil demais foi o que pensei
era feito para quebrar-se foi o que pensei
e não: eu fui feita para quebrar
em geral eles apenas se espatifam
na pia entre a louça branca e os talheres
(esses não quebram nunca) ou no chão
espalhando-se então com um baque luminoso
tenho recolhido cacos
tenho observado brevemente seu formato
pensando que acontecer é irreversível
pensando em como é fácil destroçar
tenho embrulhado os cacos com jornal
para que ninguém se machuque
como minha mãe me ensinou
como se fosse mesmo possível
evitar os cortes
(mas que não seja eu a ferir)
tenho andado a tentar
não me ferir e não ferir os outros
enquanto esgoto o estoque de copos
mas não tenho quebrado minhas próprias mãos
golpeando os azulejos
não tenho passado a noite
deitada no chão de mármore
estudando as trocas de calor
não tenho mastigado o vidro
procurando separar na boca
o sabor do sangue o sabor do sabão
nem tenho feito uma oração
pelo destino variado
do que antes era um
e por minha força morre múltiplo
tenho quebrado copos
para isso parece deram-me mãos
tenho depois encontrado
cacos que não recolhi
e que identifico por um brilho súbito
no chão da cozinha de manhã
tenho andado com cuidado
com os olhos no chão
à procura de algo que brilhe
e tenho quebrado copos
é o que tenho feito
Minha mãe tem uma amiga Maria, super querida, mora em São josé do rio preto lá no longe e essa amiga comprava copos baratos para jogar na parede assim que se divorciou. Quando minha mãe me disse isso perguntei qual era a loja e minha mãe me chamou de louca. Como pode a louca ser a Maria se foi a que melhor lidou com a raiva? Que comprou barato no mercado de esquina e jogou contra a parede? Talvez ela seja mais inteligente que todas nós porque soube o que fazer com essa raiva, porque enquanto isso, eu fico que nem vaca ruminando capim, num vai e vem pra tentar explicar esse sentimento espinhoso e indigesto que nem sei ao certo o que fazer.
Gostou? talvez eu queria me acostumar com mini textos e textos de referência por aqui, vai que eu gosto…
Não vou me apresentar pra ver se assim alguém fica mais um pouco

